**ATENÇÃO LEITORES: Esta postagem é de um outro blog que eu tinha. Foi publicada em janeiro de 2005; mas como o outro blog foi desativado, estou republicando em homenagem à querida professora Regina Santelli citada no primeiro parágrafo. :-)
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Tudo começou quando eu passei no vestibular pra Engenharia Química, em 2002. Já no 1º semestre, estava mal em todas as matérias. Mas a professora de Química Geral III, Regina Santelli (nunca mais esqueço esse nome), sempre muito atenciosa com seus alunos, não se absteve diante de meu desempenho ruim. Chamou-me para conversar e percebeu que eu estava desmotivado e bastante desorientado, sem saber o que realmente queria cursar na faculdade. “Tia” Regina, então, me indicou a Terapia de Orientação Vocacional, oferecida pelo Serviço de Psicologia Aplicada da UFF, no Gragoatá.
Dito e feito. Fui lá, me inscrevi e estava eu presente à primeira sessão, em abril de 2003. Era uma terapia de grupo: 10 adolescentes, mais a psicóloga, sentados em roda. Naturalmente, todos numa situação dessas fariam um trabalho de “reconhecimento de rostos” para ver se há alguém conhecido. Eu, ao passear com os olhos, me deparo com uma certa menina e constato: “Caramba, essa daí já estudou comigo na Cultura Inglesa...”. Mas, como ela não se manifestou, fiquei na minha.
Segundo encontro, e nada daquele pensamento se afastar. Resolvi averiguar e, após a sessão, procurei-a e começamos a conversar; primeiro sobre cursos e profissões, depois sobre assuntos mais “pessoais”. Descobri que ela morava no Flamengo, e que nunca fizera nada de importante em Niterói – quanto mais freqüentar um curso regular, conforme minha suposição. A terapia foi se desenrolando, as sessões acontecendo, e sempre ao final delas nós íamos andando juntos, desde o bloco de Psicologia até as barcas, conversando bastante. Fomos ficando mais próximos, pouco a pouco. Era perceptível o brilho em seus olhos, o interesse em me ouvir falar e fazer-lhe perguntas, o jeito de me olhar, o sorriso tímido porém sincero. A conversa fluía com notável viscosidade. Até os dias chuvosos eram mais bonitos. (Quer dizer, não sei se eu de repente estava “cego de paixão” e por isso mesmo supervalorizando o que via e sentia; preciso refletir mais.)
“Mas eis que chega a roda viva / E carrega o destino pra lá...”. As sessões acabaram, e eu não tinha mais como me encontrar com Camila toda semana. Assim, voltei lá no Gragoatá e pedi à terapeuta os telefones de todos os participantes da Terapia, numa tentativa de disfarçar o meu interesse por uma pessoa em especial. (Será que o “truque” funcionou??)
Pois bem: liguei para a casa dela. No início tentei disfarçar, perguntando se ela já escolhera qual curso fazer na faculdade, comentando sobre o mercado de trabalho etc. Ela, porém, logo percebeu o verdadeiro motivo para eu estar telefonando, e passou a jogar mais na defesa. Como sou um péssimo argumentador, pra ela me quebrar no discurso foi um pulo. Liguei outras vezes, mas a situação foi ficando insustentável. Entretanto, algo me dizia que eu deveria continuar tentando.
Até que, um belo dia, chamou, chamou, chamou e ninguém atendeu. Pensei: ela saiu. Passei a ligar em dias diferentes, nos horários mais variados, de telefones diferentes. “Ih, então deve ter viajado” – cogitei, após numerosas tentativas sem sucesso. Continuei ligando pra lá regularmente, de duas a três vezes por semana (!!), na esperança de ela “voltar de viagem” ("como é bobinho, esse menino!”, diria aquele personagem d’A Praça É Nossa).
Mais ou menos um mês depois, no dia 30 de setembro de 2003, ela resolveu me atender. Sem mais delongas, ela disse algo assim: “Sei lá, a gente não tem nada a ver... Pô, num liga mais pra cá não!”. Ainda tentei contornar a situação, mas já era tarde demais.
E olha que levou tempo para eu perceber que a paixão evoluíra para uma perigosa obsessão: cheguei ao cúmulo de pedir a um técnico da Telemar para conseguir o endereço dela. Em vão: não tive coragem de tocar o interfone, quanto mais de dirigir-lhe a palavra...
Todas as trocas de olhares, toda a conversa fluida e interessante, todos os sorrisos sinceros – tudo desperdiçado. :-(
Em abril de 2004, já cursando Letras, decidi dar as caras novamente, para pelo menos resolver a questão de maneira decente. Apelei para minha especialidade – a escrita, modéstia à parte :-) – e enviei uma carta à tal residência no Flamengo; tentei ser o menos romântico e meloso que pude. Segue o conteúdo da mensagem, na íntegra:
Camila,
Em primeiro lugar, você deve estar surpresa -- talvez até assustada -- em receber esta carta. Pode ser que você ainda esteja com alguma raiva de mim, mesmo tendo eu parado de ligar insistentemente para sua casa há uns oito meses atrás.
Aquilo foi vergonhoso. Absolutamente vergonhoso. Assumo que perdi a noção naquele momento, e venho por meio desta também pedir desculpas pelo incômodo. Até tentei te ligar novamente há algumas semanas atrás; mas logo lembrei do seu pedido de não telefonar mais pra sua casa... Achei por bem respeitá-lo, e arranjei um outro meio de comunicação.
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Lembra-se que, ano passado, eu cursava Engenharia Química, mas que após as sessões de Orientação Vocacional, decidi fazer Letras? Pois bem. Me inscrevi para Letras - Port./Inglês no vestibular UFF-2004 e consegui passar. E hoje posso afirmar: estou plenamente satisfeito com o curso. Aqui é o meu lugar. Só para se ter uma idéia: estou gostando tanto das Letras, que o meu modo de pensar, minhas atitudes e meu cotidiano mudaram profundamente. Perdi a vontade de sair para as "noitadas" de sexta e sábado, estou me alimentando melhor, bebendo mais água, dormindo mais, dentre outras coisas. Me sinto impelido a estar sempre com mente sã e corpo são, para poder aproveitar o máximo das aulas e fazer boas provas.
Mas acho que isso tudo acabou me tornando uma pessoa meio distante do mundo, sei lá... se antes eu me apegava muito a quem eu admirava, e admiro -- e você é uma dessas pessoas --, hoje trato todo mundo normalmente, igual a qualquer amigo mais próximo. Ou seja, se a impressão que você teve de mim foi a de um cara chato e grudento, pode esquecer.
Por falar em esquecer, não esqueci de você durante todo esse tempo; mas diferente do que possa parecer, não foram aqueles devaneios próprios do ultra-romantismo, em que o poeta mergulha em angústia e depressão por não ter a amada ao seu lado (se fosse assim, a essa altura eu já tava internado).
Você aparece casualmente nas lembranças corriqueiras, como lembrar do aniversário de alguém, ou lembrar que semana que vem tem prova. Sem falar na hora de dormir, porque geralmente eu sonho com elementos do cotidiano.
Estou, portanto, mandando esta carta apenas para dar um desfecho digno a toda esta história. Pode ser um ponto-final, um porém, um ponto-parágrafo. O que não pode continuar é essa vírgula gigante, que tá aí atolada desde o ano passado. Gostaria que você respondesse a esta carta.
Abraços,
César
O fato é que ela não me respondeu. Aliás, realmente eu já não tinha muitas esperanças disso. Se não quis responder, ou se esqueceu, ou se nem recebeu a carta, aí já é fora do meu alcance.
**CONCLUSÃO: Nunca mais faço isso novamente, isso de mergulhar de cabeça numa paixão, sem nem prender a respiração, dizendo foda-se a tudo. E não é porque fica chato, ou porque incomoda os outros, ou porque eu pago mico. Nada disso: simplesmente não consigo mais. Sei lá, parece que meu coração envelheceu e não agüenta mais tantas pancadas como antes. Hoje, antes de mergulhar, eu devidamente verifico a direção do vento, visto a roupa de mergulhador, coloco óculos, respirador, tanque de oxigênio, alongo minhas articulações e de quebra molho o dedão do pé para ver se a água está muito fria.
Ainda que seja só uma piscina infantil.
Saturday, December 01, 2007
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